terça-feira, 2 de dezembro de 2008

A FÉ

A GÊNESE DO PENSAMENTO HUMANO

Pelo viaduto dos sentidos, entram na mente humana as impressões e as sensações dos diferentes objetos. Na realidade a mente é isto: uma rede filtradora ou uma fábrica de elaboração. Efetivamente, de cada objeto detectado pelos diversos sentidos, a mente separa o que tem de próprio ou individual, extrai e retém o que tem em comum com todos os demais objetos de sua espécie. Isto é, deduz uma idéia comum a todos os objetos e, por conseguinte, universal. É um trabalho de universalização. Vamos dar um exemplo concreto.Vejo aqui uma cadeira. Lá longe vejo outra cadeira, mas, como é diferente desta! Neste canto há outra cadeira mas que não se parece nada com as outras duas primeiras nem no tamanho nem na forma. E assim, entraram em minha mente, suponhamos cinqüenta cadeiras de cinqüenta formas diferentes. Agora começa o trabalho elaborador da mente. De todas as cadeiras, ou melhor, de todas as imagens concretas de cada cadeira, a mente, deixando de lado aquilo que é próprio de cada uma, tira e guarda o que é comum a todas: uma idéia universal de cadeira.

Uma vez terminado esse trabalho de elaboração, podem apresentar-se a meus olhos mil cadeiras no meio de dez mil outros objetos. Minha mente toma aquela idéia universal como um candeeiro, e, com sua luz, vou distinguindo, reconhecendo e identificando as mil cadeiras entre os dez mil objetos. Sem me enganar.
O mesmo acontece em outras áreas. Se me apresentarem cinco mil objetos, saberei dizer com precisão quais deles são frios, quais são quentes ou mornos. Ou, em outra ordem, quais são duros ou moles; quais são verdes, vermelhos ou amarelos. Esse é o funcionamento e a gênese do pensamento humano.

UM PROCESSO COGNOSCITIVO

É daí que parte o mistério da fé. Eu abro os olhos e vejo uma flor amarela, como transmitir ao cego o fato de que a flor é amarela? Impossível. Quando a comunicação se torna impossível, recorremos a aproximação ou outros pontos de referência. E assim dizemos ao cego: a cor amarela é algo aproximativo ou intermediário entre... (o quê) ...o vermelho e o branco... é inútil continuar. O cego não "sabe" o que é branco, roxo, marrom... nada. As cores nunca entraram no seu mundo. Quanto a elas para ele é noite. As cores trancendem-no. Mas seguramente, o cego "entenderá" o amarelo por referências a outras impressões que ele tem, recebidas por outros sentidos: o amarelo será "entendido" como morno, brando, sensações suaves por exemplo. E depois de tantas explicações, quando o cego acreditar que "entendeu" a cor amarela, precisaríamos dizer-lhe: Meu amigo, o amarelo não é nada do que você "entendeu". É absolutamente outra coisa.

Essa é exatamente a nossa situação com repeito a Deus. Como ele nunca entrou e nem vai entrar pelos sentidos do laboratório mental, para conhecê-lo, temos que lançar mão de outras referências que, ao menos, nos "aproximem" cognoscitivamente dele. Isto é, vamos por um caminho indireto. Sabemos, por exemplo, o que quer dizer pessoa. Transferimos o conteúdo dessa palavra e o aplicamos a Deus, dizendo: Deus é pessoa. Mas, falando com precisão, teríamos que acrescentar: mas Deus não é exatamente pessoa. Deus é absolutamente outra coisa em relação às pessoas. Deus está na penumbra. Nossos conceitos, aplicados a ele, não concordam. Numa palavra: Deus é absolutamente distinto de nossas idéias, conceitos e preconceitos, representações e imagens.Em todos os sentidos, portanto, Deus é totalmente diferente. Mesmo depois que a lógica me obrigou a afirmar que ele existe, seu mistério continua inviolado. A razão não chega até ele, dialética e representação não podem passar do umbral.Assim é a fé. Saber mas sem conseguir explicar. É um hábito da alma, certo e escuro. A essência da fé é constituída, portanto, pela escuridão e certeza.

A LEI DA VIDA É A LEI DA FÉ

Apesar dessa dificuldade de entendimento, a lei da vida é a lei da fé. E esta lei faz parte das grandes verdadades eternas e os princípios da vida que são anteriores a todas as religiões existentes no mundo. E fé pode ser resumida como um pensamento na mente, é substância das coisas que se esperam. Como um homem pensa, sente e crê, tal a situação de sua mente, corpo e circunstâncias que o cercam. Essencialmente, uma oração atendida é a realização do anseio do coração.
Isso explica as grandes diferenças entre as pessoas: porque uma é triste e outra alegre; porque tantas pessoas boas e/ou religiosas sofrem as torturas dos condenados em sua mente e corpo; porque tantas pessoas ímpias e sem moral obtém sucesso, prosperam e gozam de excelente saúde; porque algumas pessoas conseguem ficar curadas de uma doença considerada incurável, e outras não; porque um homem é um gênio em seu trabalho ou profussão e o outro moureja a vida inteira sem nada fazer ou conseguir de valor; porque uma mulher é feliz no casamento e sua irmã frustrada e infeliz, etc.

A fé não é sentir mas saber.

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